quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Parabéns, Capitão.





O nosso capitão tem 60 anos

Há anos que são difíceis nas nossas vidas e o corrente ano tem sido um desses anos maus para Carlos Faria. No entanto, o seu rosto não deixa transparecer os sessenta anos de vida, entretanto completados, antes revelando uma juventude, que permanece, quer no corpo quer na mente, muito pela constância da prática desportiva, que surgiu como uma necessidade, já numa fase adulta da sua vida e se manteve pelo gosto, pelo prazer e pelo bem estar que proporciona o exercício físico praticado com regularidade.

São já longos os anos em que participa regularmente em provas, quase sempre na sua forma. Queremos que sejam muitos mais.

Na sua juventude a prática desportiva repartiu-se pelo futebol e pela corrida. Carlos Faria recorda o seu gosto, de sempre, pelo desporto, tendo ainda bem presentes na memória as suas primeiras corridas e o lugar de guarda-redes do Grupo Desportivo de Peniche, enquanto Júnior.

Data de 1963, numa prova escolar, a sua iniciação na corrida. Tinha então dezasseis anos. A pista foi o perímetro do Campo do Baluarte. Outra recordação dos primórdios da prática da corrida foi uma prova de estafetas organizada por Nuno Bello, o homem que, além de outras iniciativas, como o primeiro Triatlo em Portugal, está na origem da Corrida das Fogueiras, uma das mais singulares e populares corridas de Portugal. Foi em 1969, em Peniche, numa volta completa à Península, realizada em quatro percursos. A equipa de Carlos Faria, que incluía também Joaquim Serafim, António Venâncio e Joaquim Batim, foi a quarta classificada, num total de sete equipas. Da equipa vencedora faziam parte Joaquim Carinhas, José Gonçalves, Joaquim Sabino e Fernando Mendes. Alguns destes nomes ainda resistem, juntam-se no Farolim e correm pela praia de Peniche de Cima, pelo Calçadão e pelas ruas e estradas do Concelho de Peniche.

No futebol, enquanto Júnior foi guarda-redes titular do Grupo Desportivo de Peniche. Carlos Faria foi então campeão distrital e regional, pelo GDP, duas épocas consecutivas. Participando nos quartos de final do nacional da categoria foi em ambos os anos eliminado. No primeiro pelo Palmense. No ano seguinte pelo Benfica com resultados invulgares e muito penalizadores para um guarda-redes. Em Peniche, a equipa de juniores do GDP foi derrotada por 6-2. Ainda mais volumoso foi o resultado da segunda mão que atingiu os 13 golos do Benfica, sem resposta. O futebol não ficou por aqui. Carlos Faria continuou como guarda-redes, desta vez numa equipa do futebol amador. Alcançou um título local, jogando pelos Leões de São Marcos, quando o torneio do futebol amador ainda se realizava no campo do Baluarte.

Depois dos toques e defesas no futebol, foi o gosto pela corrida que lhe traçou parte do destino e lhe permite uma vida com mais qualidade, mesmo sem grande apetência para ser campeão ou para ganhar provas, Carlos Faria só não praticou a corrida em curtos períodos da sua vida adulta. Tendo vivido na região metropolitana de Lisboa durante alguns anos, recorda que em 1972 era corredor de fim-de-semana, quando correr era mal visto pelo cidadão comum. Abandonou então a prática da corrida, tendo engordado até pesar mais de 90 quilogramas. Surgiram problemas de saúde, de origem nervosa, que o levaram de novo à corrida regular, a conselho médico. Primeiro apenas aos fins de semana, depois também a meio da semana. Por fim, Carlos Faria corria quase todos os dias.

Depois do 25 de Abril de 1974, começou em Portugal uma nova era para as corridas populares. Ainda a viver na região de Lisboa, Carlos Faria lembra que participou então em muitas dessas provas. Regressando a Peniche, em 1980, continuou a treinar regularmente. Deu-se então o inevitável encontro com Carlos Adão, um nome incortornável do atletismo de Peniche, bem como com Carlos Viola e Henrique Costa. Carlos Faria confessa que teve muitas dificuldades em acompanhar o ritmo de treino dos seus colegas, tendo então uma melhor percepção das suas limitações. Isso não o impediu de se juntar ao grupo e de ingressar, em 1981, no Arneirense das Caldas da Rainha, equipa de muitos dos seus colegas de treino.

Sendo treinado por António Vasconcelos, Carlos Faria representou o Arneirense duas épocas, sem grandes resultados. Recorda que a sua vida profissional, de mecânico de frio não ajudava. Algo que pôde ser testemunhado pelos responsáveis do Arneirense. Nos anos seguintes passou a representar a Associação E.F.C.R. Penichense, continuando a ser treinado por António Vasconcelos. Datam desses anos as duas maratonas que completou, sempre com muitas dificuldades e sacrifício. “A maratona é uma prova para a qual não consigo a concentração necessária, nem o espírito, que me permitam atingir o objectivo a que me proponho e que julgo, à partida, ser possível ”, diz. “Mas chegar ao fim de qualquer prova é sempre empolgante, seja de uma maratona seja de uma corrida de 10 quilómetros”, adianta.

Tendo uma longa carreia atlética, Carlos Faria salienta apenas o título de campeão distrital de veteranos, em representação da Óptica 2001, na época de 1987/88, quando tinha 40 anos. Uma distinção que destacou o atleta mais regular nos vários Grandes Prémios da Associação de Atletismo de Leiria, na categoria. Lembra que, por vezes, há um prazer especial quando sentimos que nos superamos, que vamos além do nosso objectivo inicial e batemos os nossos companheiros de treino, como aconteceu há cerca de cinco anos nos 20 Kms de Almeirim. Mas diz que o facto de se sentir saudável, nunca ter tido uma baixa ou faltado ao trabalho são as maiores recompensas que teve por todos estes anos de prática desportiva. Aos mais novos lembra que a recuperação do esforço e das mazelas se vai tornando cada vez mais difícil, à medida que os anos passam. Algo que aprendeu por experiência própria.

Também houve maus momentos, que passaram quase sempre por lesões, próprias de quem pratica um desporto com tanta regularidade. A mais grave foi uma fascite plantar, que se revelou de recuperação muito difícil. Trata-se de uma lesão que começa com uma dor suave e gradual no osso do calcanhar, que pode ser descrita como a uma “picada de agulha” e que significa uma inflamação da faixa resistente e fibrosa do tecido (fascia), que liga o osso do calcanhar à base dos dedos do pé. A cura passou por descanso, anti-inflamatórios e um programa dos exercícios para alongamento do tendão de Aquiles e da fascia plantar. Também a coluna, por vezes, traz dissabores.

Em termos atléticos, Carlos Faria refere a desilusão que foi a desistência, aos 30 quilómetros, na sua terceira maratona. Mas não exclui a hipótese de finalizar, uma terceira vez, a corrida olímpica com a maior distância. Outro momento dramático remonta a 1983, na 1ª Meia Maratona Internacional de Tróia. Carlos Faria realizou então o seu tempo mais lento numa meia maratona, já lá vão 24 anos, tendo inclusivé descansado à sombra dos parcos pinheiros, durante a prova, para recuperar, num dia de canícula extrema. Mais de 2 horas e 5 minutos, para percorrer os 21.097,5 metros. Recorda que muitos atletas foram parar ao hospital, outros sofreram fortemente os efeitos do calor tórrido que se fez sentir.

Carlos Faria foi duas vezes distinguido como o atleta do ano de Peniche. Esta distinção não é dedicada aos que conseguem melhores resultados desportivos, mas, aos que, pelo seu esforço e dedicação, contribuem, de alguma forma, para o desenvolvimento e divulgação da corrida. Em 1996 foi escolhido pelo grupo de três elementos que constituíam a comissão nomeada, no ano anterior, para organizar o almoço dos atletas, que se realiza, todos os anos, no Domingo seguinte à Corrida das Fogueiras. E em 2005, de forma mais alargada, foi eleito numa votação dos seus pares.

Em mente está uma corrida, não competitiva e provavelmente não solitária, a realizar entre Peniche e Fátima. Carlos Faria não sabe se será a última, pois sente que não pode deixar de correr. Poderá abandonar a forma competitiva como ainda hoje encara o seu desporto de eleição, mas “pensa correr até ao fim, mesmo que seja só manutenção”.